5º dia/1 – Trujillo e o legado dos Pizarro na Extremadura
No quinto dia da viagem pela Extremadura, deixamos o Hotel Extremadura, em Cáceres, logo após o café da manhã e seguimos em direção a Trujillo, a cerca de 45 km, dando continuidade ao roteiro pelo interior da região. O dia começou de forma mais tranquila, pois já tínhamos a mala e conseguimos colocar outras roupas.
Em primeiro lugar, visitamos Trujillo, cidade marcada por um importante conjunto histórico, onde também almoçamos. Depois, seguimos viagem até Medellín, local de nascimento de Hernán Cortés. Por fim, chegamos a Mérida, antiga Augusta Emerita e capital da Lusitânia romana, onde pernoitamos.
Ao longo do dia, o tempo variou, a manhã começou nublada, mas o céu foi clareando. Apesar da nebulosidade inicial, não choveu.
Trujillo
Trujillo é uma das cidades históricas mais representativas da Extremadura e um dos municípios espanhóis mais diretamente associados à expansão ultramarina do século XVI. Localizada na província de Cáceres, a cidade conta atualmente com uma população aproximada de 9 mil habitantes e preserva uma estrutura urbana fortemente marcada por sua longa trajetória histórica, especialmente pelos períodos medieval e moderno. Ao longo dos séculos, Trujillo exerceu funções estratégicas ligadas ao controle territorial, à administração regional e à formação de elites locais que desempenharam papel relevante na história da Espanha.
A Trujillo romana e suas curiosidades
Na Antiguidade, o assentamento romano era conhecido como Turgalium, integrando a província romana da Lusitânia e mantendo vínculos com o eixo administrativo de Emerita Augusta (atual Mérida).
Essa herança romana foi retomada simbolicamente na cultura popular contemporânea. No filme Gladiator, o personagem Maximus Decimus Meridius é apresentado como originário da Hispânia, sendo associado à região da Lusitânia e, em algumas versões e materiais relacionados ao filme, à antiga Turgalium, atual Trujillo.
Período islâmico e formação medieval
Após o colapso do mundo romano, Trujillo atravessou um longo período de transformações até integrar, a partir do século VIII, o território de Al-Andalus. Durante o domínio muçulmano, a cidade fez parte da cora de Mérida, desempenhando funções defensivas e administrativas. Foi nesse período que Trujillo consolidou seu caráter fortificado e seu papel como ponto de controle territorial no interior da Extremadura.
Reconquista cristã e reorganização do território
A reconquista cristã definitiva ocorreu em 1233, no contexto da expansão dos reinos cristãos para o sul da Península Ibérica. Com a incorporação à Coroa castelhano-leonesa, Trujillo passou por um profundo processo de reorganização política, social e territorial.
A cidade tornou-se centro administrativo de um amplo território, com a redistribuição de terras e o fortalecimento de linhagens nobres locais. Assim, esse processo marcou o início de uma fase de crescimento e afirmação regional, que prepararia o terreno para o protagonismo que Trujillo alcançaria nos séculos seguintes.
Trujillo e a expansão ultramarina
O século XVI marcou o período de maior projeção histórica de Trujillo, diretamente associada à expansão espanhola no continente americano. A cidade tornou-se local de origem de figuras centrais desse processo, cuja atuação teve impacto decisivo na formação do império colonial espanhol.
Entre elas destaca-se Francisco Pizarro, responsável pela conquista do Império Inca. A partir da década de 1530, Pizarro liderou as campanhas que resultaram na tomada de Cajamarca, na captura do imperador Atahualpa e na incorporação dos territórios andinos à Coroa espanhola.
Outro personagem fundamental ligado a Trujillo é Francisco de Orellana, participante inicial das campanhas no Peru e posteriormente protagonista de uma das grandes explorações do continente sul-americano. Em 1541–1542, Orellana realizou a primeira navegação completa do rio Amazonas, desde a região andina até o oceano Atlântico. De fato, essa expedição permitiu aos europeus o primeiro reconhecimento contínuo da maior bacia hidrográfica do mundo e consolidou o conhecimento geográfico espanhol sobre o interior da América do Sul.
Declínio e transformações entre os séculos XVII e XIX
A partir do século XVII, Trujillo entrou em um período de declínio, afetada por crises econômicas, perda de população e conflitos como a Guerra da Restauração portuguesa e a Guerra de Sucessão Espanhola. Assim, no século XVIII, a cidade apresentava sinais claros de retração econômica e diminuição de sua influência regional.
No início do século XIX, durante a Guerra da Independência espanhola, Trujillo foi ocupada repetidas vezes por tropas napoleônicas, sofrendo danos significativos. Em 1822, a antiga província de Trujillo foi desmembrada, e com a reorganização territorial de 1833, a cidade passou a integrar oficialmente a província de Cáceres como município constitucional.
Trujillo na atualidade
Ao longo do século XX, Trujillo consolidou-se como centro comarcal, mantendo a agricultura como uma de suas bases econômicas. Paralelamente, avançou o processo de valorização de sua herança histórica, que passou a desempenhar papel relevante na economia local.
Igreja de San Francisco e a presença franciscana em Trujillo
Iniciamos nossa visita a Trujillo pela Igreja de San Francisco, ligada à presença da Ordem Franciscana na cidade e ao processo de consolidação cristã após a reconquista. A igreja teve origem no século XV, quando passou a integrar um antigo conjunto conventual. Do ponto de vista artístico, o edifício apresenta características do gótico tardio.
Além disso, a construção da igreja relaciona-se com a expansão urbana fora do núcleo fortificado, acompanhando o crescimento da cidade entre a Idade Média e o início da Idade Moderna. Nesse contexto, como ocorreu em outros centros da Extremadura, os conventos franciscanos desempenharam não apenas funções religiosas, mas também papéis de assistência e articulação social. Durante a visita, a igreja estava fechada, observando apenas o edifício pelo exterior.

Convento de San Miguel e Convento de San Antonio: a expansão religiosa de Trujillo para além do núcleo histórico
Nas imediações da Igreja de San Francisco, fora do núcleo mais antigo da cidade, Trujillo conserva outros edifícios religiosos. Nesse contexto, destaca-se o Convento de San Miguel, fundado no século XV e associado à Ordem Dominicana. O conjunto apresenta uma arquitetura de caráter sóbrio, com elementos do gótico tardio, posteriormente modificados por intervenções realizadas entre os séculos XVI e XVII.


Nas proximidades, na Plaza del Campillo, localiza-se o antigo Convento de San Antonio, fundado no final do século XVI. Atualmente, o edifício abriga o Hotel Izan Trujillo, resultado da adaptação do conjunto histórico para uso hoteleiro. Do ponto de vista arquitetônico, mantém um estilo barroco classicista, integrado à dinâmica contemporânea da cidade.
Convento de la Merced
Prosseguindo pelo percurso, chegamos ao Convento de la Merced. A fundação do convento remonta ao século XVI, período em que a cidade consolidava sua configuração urbana durante a Idade Moderna. A Ordem Mercedária esteve associada, desde sua origem, à redenção de cativos e à assistência religiosa.
Um elemento que chama a atenção na fachada é a presença de um antigo anúncio pintado dos “Nitratos do Chile”, vestígio da publicidade comercial do final do século XIX e início do século XX. Assim, esse tipo de inscrição revela uma camada mais recente da história urbana, marcada pela circulação de produtos industriais e pela permanência da propaganda no espaço construído.

Plaza Mayor: o coração de Trujillo
Chegamos então à Plaza Mayor, principal espaço público de Trujillo e verdadeiro núcleo articulador da cidade histórica. Desde a Idade Média, a praça concentrou funções administrativas, comerciais e sociais, tornando-se o cenário central da vida urbana ao longo dos séculos. A configuração atual da Plaza Mayor consolidou-se sobretudo entre os séculos XV e XVI, período de maior projeção histórica da cidade. Ao seu redor, alinham-se edifícios civis e religiosos que refletem o poder das elites locais e a importância política alcançada por Trujillo durante a Idade Moderna.
No centro da praça destaca-se a estátua equestre de Francisco Pizarro, natural de Trujillo e figura central da expansão espanhola na América. O monumento reforça a ligação direta entre a cidade e a conquista do Império Inca, além de simbolizar o momento de maior protagonismo histórico local. Ademais, a praça é delimitada por construções emblemáticas, como palácios nobres e edifícios religiosos. Entre eles, encontra-se a Igreja de San Martín, cuja presença marca a dimensão religiosa do espaço.



Foi também na Plaza Mayor que fizemos uma pausa para o almoço, no Pretos Tapería. O prato escolhido combina alcachofras, jamón e ovo, tradicional da cozinha estremenha. As alcachofras salteadas e bem macias, acompanhadas por lascas de jamón. Por cima, o ovo, servido com a gema ainda cremosa. Essa proposta, baseada em produto local, estava uma delícia!

Igreja de San Martín: a igreja central de Trujillo
A Igreja de San Martín, dedicada a San Martín de Tours, localiza-se na Plaza Mayor e é uma das igrejas mais importantes da cidade. Há registros documentais de sua existência já em 1353, quando o Conselho de Trujillo se reunia em seu átrio, o que evidencia seu papel central na vida urbana.
O edifício resultou de um longo processo construtivo, desenvolvido entre os séculos XIV e XVI, combinando elementos do gótico tardio e do Renascimento. O interior organiza-se em nave única ampla, coberta por abóbadas, e conserva obras artísticas relevantes, entre elas a imagem de Nuestra Señora de la Coronada, do século XIII, e um órgão barroco do século XVIII.


Diferentemente de outros edifícios visitados anteriormente, conseguimos entrar no interior da igreja e percorrer o espaço com calma. O ingresso, apesar de não ser barato, incluía também a visita à Igreja de Santa María la Mayor, o que acabou compensando o valor pago.
Igreja de Santa María la Mayor: o principal templo religioso de Trujillo
Em seguida, subimos até a Igreja de Santa María la Mayor, situada na Plazuela de Santa María, já na parte alta de Trujillo. A igreja é considerada o edifício paroquial mais importante da cidade. Sua construção teve início logo após a reconquista cristã, em 1232, seguindo um estilo tardorromânico. Com o passar do tempo, o templo passou por sucessivas transformações. Assim, ao longo do século XVI, ocorreram amplas reformas, responsáveis por grande parte da configuração atual. Nesse processo, elementos românicos passaram a conviver com soluções góticas e renascentistas.


Durante a visita, entramos no interior da igreja, utilizando o ingresso que já havíamos comprado anteriormente, o mesmo que incluía a Igreja de San Martín. Já no interior se destaca um importante retábulo gótico, atribuído a Fernando Gallego. Também subimos às torres, de onde se têm vistas muito bonitas sobre a cidade e sobre o Castelo de Trujillo.


Ao longo da história, ali ocorreram cerimônias ligadas à monarquia espanhola. Além disso, a igreja abriga os sepulcros de conquistadores, hidalgos e nobres de Trujillo, entre eles Diego García de Paredes, citado por Cervantes como o “Sansón Extremeño”.
Logo em frente ao templo, encontra-se o busto em bronze de Francisco de Orellana, natural da cidade e conhecido por ter realizado a primeira navegação completa do rio Amazonas.

Castelo de Trujillo e a ocupação estratégica do território
O Castelo de Trujillo ocupa o ponto mais elevado da cidade e domina visualmente todo o entorno urbano e a planície de Extremadura. Assim, a fortaleza atual tem origem islâmica, sendo construída entre os séculos IX e X, durante o período de Al-Andalus. Nesse momento, Trujillo integrava a cora de Mérida, e o castelo funcionava como peça fundamental do sistema defensivo regional. De fato, as muralhas, torres e o traçado do recinto refletem claramente essa função militar.
Após a conquista cristã em 1233, o castelo foi incorporado ao sistema defensivo do reino castelhano-leonês. A partir daí, passou por adaptações, embora tenha mantido em grande parte sua estrutura original. Durante a Idade Média, a fortaleza continuou a exercer papel central na defesa da cidade e no controle do território circundante.
Durante a visita, percorremos o castelo e subimos às muralhas. As vistas são muito bonitas. Do alto, é possível observar tanto o traçado da cidade medieval quanto os principais edifícios religiosos e civis de Trujillo.



Casa-Museu de Francisco Pizarro: a origem do conquistador e o legado americano de Trujillo
Seguimos então até a Casa Museu de Francisco Pizarro, um dos lugares mais emblemáticos de Trujillo. Foi nesta casa que Francisco Pizarro passou os seus primeiros anos de vida, antes de partir para o Novo Mundo e liderar, no século XVI, a conquista do Império Inca.
O edifício é uma casa solarenga de origem medieval, de arquitetura simples e típica da época. Transformada em museu em 1993, a casa abriga hoje exposições permanentes que ajudam a compreender a trajetória de Pizarro, a história da sua família e o contexto das conquistas espanholas na América. O acervo reúne documentos históricos, mapas, artefatos e réplicas relacionados à conquista do Império Inca.

Convento de la Coria: um antigo convento que hoje abriga cultura e memória
Seguimos até o Convento de la Coria, também conhecido como Convento de San Francisco el Real, nome ligado à antiga porta medieval da muralha que conduzia à cidade de Coria. O edifício foi fundado em 1426, por meio de uma Real Cédula do rei Juan II, para acolher beatas da Terceira Ordem Franciscana, ligadas a importantes linhagens de Trujillo. Desde a sua origem, o convento esteve associado à vida religiosa e social da cidade. Atualmente, o convento abriga a Fundación Xavier de Salas, dedicada ao estudo e à difusão das relações históricas entre a Extremadura e a América.


La Alberca: herança islâmica e a gestão da água na Trujillo medieval
Seguindo o percurso pelo centro histórico, chegamos a La Alberca, uma antiga estrutura ligada ao abastecimento de água da cidade. Diferente de outros elementos urbanos, sua origem remonta ao período islâmico, entre os séculos IX e X, quando Trujillo fazia parte de Al-Andalus.
Nesse contexto, La Alberca funcionava como reservatório de água, aproveitando a topografia do terreno e técnicas típicas da engenharia hidráulica árabe. O controle e o armazenamento da água eram essenciais tanto para a vida cotidiana quanto para a manutenção da cidade em períodos de conflito ou escassez. Após a Reconquista cristã, a estrutura foi preservada e reutilizada, mantendo sua função ao longo dos séculos.

Percorrendo as ruas do centro histórico de Trujillo
O centro histórico de Trujillo é formado por um conjunto de ruas que preservam de forma muito clara o traçado medieval da cidade. Caminhar por elas é uma experiência marcada por muros de pedra e vias estreitas. Por exemplo, a Calle Alhamar e a Calleja de los Mártires revelam esse caráter mais íntimo e recolhido, com passagens estreitas e fachadas robustas que reforçam o passado defensivo da cidade. Já a Calle Convento de los Jerónimos apresenta um espaço um pouco mais aberto.

Em contraste, a Calle de la Victoria surge como uma via de traçado simples, conectando diferentes pontos do centro. A proximidade da Puerta de San Andrés, uma das antigas portas da muralha, lembra a importância das estruturas defensivas e a antiga separação entre a cidade fortificada e as zonas de expansão urbana. Por fim, a Calle Angosta, fiel ao nome, reforça essa sensação de recolhimento, com seu percurso estreito e ladeado por altos muros de pedra.


Arco del Triunfo e as muralhas de Trujillo
Dando continuidade ao percurso pelo centro histórico, passamos pelo Arco del Triunfo, um dos acessos mais reconhecíveis da antiga cidade fortificada. Diferente das portas medievais de origem islâmica, o arco atual corresponde a uma intervenção do século XVI, já em contexto cristão, com linguagem renascentista e função tanto simbólica quanto urbana.
Ao atravessar o Arco para fora da cidade, a mudança é imediata. De forma curiosa, o tecido urbano termina quase abruptamente. Após as muralhas, a cidade acaba e começa o campo, deixando clara a antiga separação entre o espaço intramuros e o território rural ao redor.

As muralhas de Trujillo, por sua vez, têm origem maioritariamente islâmica, sendo construídas entre os séculos IX e X, quando a cidade fazia parte de Al-Andalus. Após a Reconquista, o sistema defensivo foi mantido, coexistindo com estruturas posteriores como o próprio Arco del Triunfo.
Igreja e Porta de Santiago: espiritualidade e defesa na Trujillo medieval
Em continuidade pelo centro histórico, chegamos ao conjunto formado pela Igreja de Santiago e pela Porta de Santiago, dois elementos diretamente ligados à organização religiosa e defensiva da cidade medieval.
A Igreja de Santiago, construída entre os séculos XIII e XIV, esteve associada à Ordem de Santiago, que desempenhou um papel fundamental na consolidação cristã do território após a Reconquista. O templo apresenta uma arquitetura sóbria, de caráter gótico inicial.

Junto à igreja encontra-se a Porta de Santiago, uma das antigas entradas da muralha de Trujillo. Assim, este ponto cumpria uma função estratégica essencial, controlando o acesso à cidade e protegendo um setor sensível do sistema defensivo.

Encerrando a visita em Trujillo
Com isso, encerramos nossa visita a Trujillo, após percorrer seu centro histórico, suas muralhas, igrejas e ruas carregadas de história. A cidade se revelou um verdadeiro resumo do passado medieval e do papel que Extremadura teve na história da Espanha e das Américas. Em seguida, deixamos Trujillo e seguimos viagem rumo ao nosso próximo destino: Medellín, dando continuidade ao roteiro pela Extremadura.
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