Espanha – Extremadura III: Hervás e Granadilla

3º dia/1 – Entre montanhas, judiarias e vilas históricas abandonadas

No terceiro dia da viagem pela Extremadura, o plano era conhecer Hervás e, em seguida, visitar a vila histórica de Granadilla, antes de continuar o roteiro rumo a Cáceres.

Depois de deixar o Hostal Real, em Plasencia, seguimos viagem rumo a Hervás, nossa primeira parada do dia. O trajeto é curto e agradável: cerca de 35 quilômetros, percorridos em pouco mais de meia hora de carro, atravessando uma paisagem serrana típica do norte da Extremadura. Apesar do tempo começar com frio e uma garoa leve, ao chegarmos a Hervás o céu estava apenas nublado, o que permitiu explorar a cidade com calma.

Hervás

Hervás é uma pequena cidade situada no norte da comunidade autônoma da Extremadura, já na transição com Castela e Leão, aos pés da Serra de Béjar. O município funciona como uma das portas de entrada naturais para o norte da região e tem cerca de 4.000 habitantes.

Historicamente, Hervás começou a ganhar importância na Idade Média, ligada às rotas comerciais que atravessavam a serra. Durante séculos, a cidade esteve sob diferentes domínios senhoriais, o que marcou sua organização urbana e social.

Um dos elementos mais marcantes de Hervás é sua forte herança judaica. Entre os séculos XIV e XV, a cidade abrigou uma comunidade judaica numerosa e economicamente ativa, ligada principalmente ao comércio e ao artesanato. Estima-se que os judeus tenham representado uma parte significativa da população local até a expulsão de 1492, decretada pelos Reis Católicos.

Após esse episódio, muitos deixaram a cidade, mas o traçado urbano permaneceu. Hoje, Hervás conserva uma das judiarias mais bem preservadas da Extremadura, com ruas estreitas, casas em enxaimel e um ambiente que ajuda a entender o peso histórico dessa comunidade na formação da cidade.

Além do patrimônio histórico, Hervás também se destaca pelo entorno natural. A proximidade da serra, os bosques e os cursos d’água criam uma paisagem verde e agradável, especialmente em dias nublados como o nosso. Essa combinação de história, arquitetura e natureza faz de Hervás uma parada muito interessante em um road trip pela Extremadura.

Praça da Corredera: espaço central da cidade

Nossa visita a Hervás começou pela Plaza de la Corredera, um dos espaços centrais da cidade. Assim, a praça funciona como porta de entrada para o centro histórico e ajuda a entender a organização urbana da cidade ao longo dos séculos.

De origem medieval, a praça passou por várias transformações, mas manteve sua função como espaço público principal. Ao redor, aparecem edifícios de arquitetura tradicional, com varandas de madeira e fachadas simples, que refletem bem o caráter serrano de Hervás. A partir daqui, já se percebe a transição entre a área mais aberta da cidade e o traçado mais fechado do bairro histórico.

Praça da Corredera, em Hervás, com casario tradicional de fachadas brancas e varandas de madeira, calçamento de pedra molhado pela chuva e uma fonte central, sob céu nublado típico da Serra de Béjar.
Igreja de Santa María de Aguas Vivas: o principal templo de Hervás

A Igreja de Santa María de Aguas Vivas é o principal edifício religioso de Hervás e um marco visual da cidade. Sua construção teve início no século XV, embora o templo atual apresente elementos de diferentes períodos, resultado de ampliações e reformas posteriores. Assim, o estilo arquitetônico mistura gótico tardio com acréscimos renascentistas e barrocos, algo bastante comum na Extremadura. A igreja está ligada ao crescimento da cidade após a Reconquista e ao fortalecimento da comunidade cristã local, especialmente depois da expulsão dos judeus no final do século XV. Dessa forma, a igreja marca simbolicamente a separação entre o núcleo cristão e a antiga judiaria.

Judiaria de Hervás: ruas estreitas e memória sefardita

Sem dúvida, o grande destaque da cidade é a Judiaria de Hervás, considerada uma das mais bem preservadas da Extremadura. O bairro se desenvolveu principalmente entre os séculos XIV e XV, quando a comunidade judaica teve forte presença econômica e social na cidade.

Antes da expulsão de 1492, estima-se que os judeus representassem uma parcela significativa da população local, dedicando-se sobretudo ao comércio, ao artesanato e a atividades ligadas às rotas serranas. Após o decreto dos Reis Católicos, a comunidade foi obrigada a deixar a cidade, mas o traçado urbano permaneceu praticamente intacto.

Caminhar pela judiaria é voltar no tempo. Passamos por lugares como:

  • La Plaza
  • Rua Abajo
  • Rua e Travessa do Moral
  • Rua do Rabilero
  • Rua do Vado

Entre elas, destaca-se La Callejilla, conhecida como uma das ruas mais estreitas da Espanha, onde mal se consegue caminhar por ela. O conjunto arquitetônico impressiona pelas casas em enxaimel, com estruturas de madeira aparentes, paredes brancas e varandas que quase se tocam. Durante o passeio, também vimos o Caño del Tío Julián, uma antiga fonte ligada ao abastecimento de água do bairro, além da curiosa Casa dos Cactos, que hoje chama atenção pela vegetação contrastando com a arquitetura tradicional.

Calle de la Amistad Judeo-Cristiana, em Hervás, com o Caño del Tío Julián à esquerda e casas tradicionais do bairro judeu, com varandas floridas e calçamento de pedra.
Ponte da Fonte Chiquita: ligação entre a vila e o entorno natural

Depois de explorar a judería, seguimos até a Ponte da Fonte Chiquita, uma construção histórica ligada ao desenvolvimento urbano de Hervás. A ponte está associada às antigas vias de acesso à cidade e ao aproveitamento dos cursos d’água que descem da Serra de Béjar, fundamentais para o abastecimento e para a vida cotidiana ao longo dos séculos.

Ponte da Fonte Chiquita, em Hervás, com arco de pedra medieval, árvores e o riacho que atravessa a antiga judería da cidade.

Embora a estrutura atual tenha sofrido intervenções posteriores, sua origem remonta à Idade Moderna, quando Hervás já se consolidava como núcleo urbano estável após a Reconquista. A ponte fazia parte do sistema de caminhos que conectava a vila ao entorno rural, facilitando o transporte de pessoas, mercadorias e produtos agrícolas.

A partir da ponte, atravessamos para uma área mais elevada e seguimos por um caminho em subida — quase como uma pequena montanha — que oferece vistas amplas e muito bonitas da cidade.

Mirante natural acima de Hervás, com vista panorâmica da cidade, telhados do centro histórico, a igreja no alto e as montanhas do Vale do Ambroz ao fundo.

De Hervás a Granadilla: rumo a uma vila abandonada cheia de história

Depois de explorar Hervás, seguimos viagem em direção a Granadilla, deixando para trás o Vale do Ambroz e avançando pelas paisagens rurais do norte da Extremadura. O trajeto entre Hervás e Granadilla é de aproximadamente 65 km, percorridos por estradas tranquilas, cercadas por campos, colinas suaves e pequenos povoados.

Granadilla

Granadilla é uma das vilas mais singulares da Extremadura — e também uma das mais intrigantes. Atualmente, pertence ao município de Zarza de Granadilla, na província de Cáceres, embora esteja fisicamente separada do núcleo urbano principal.

Localizada às margens do atual reservatório de Gabriel y Galán, Granadilla foi fundada na Idade Média e teve grande importância estratégica por estar situada em uma rota histórica entre Castela e a região da Vía de la Plata. Seu traçado urbano conserva até hoje a estrutura original de vila murada, algo pouco comum na região, com muralhas praticamente intactas e ruas estreitas que conduzem ao antigo centro habitado.

Na segunda metade do século XX, com a construção da represa, seus moradores foram obrigados a abandonar a vila, que acabou ficando completamente desabitada. Desde então, Granadilla integra um programa estatal de recuperação do patrimônio histórico, sendo utilizada para atividades educativas e culturais. Hoje, classificada como Conjunto Histórico-Artístico, Granadilla não possui população residente permanente, mas pode ser visitada livremente.

Castelo de Granadilla: o sistema defensivo

O principal símbolo de Granadilla é o seu Castelo, construído no século XV por ordem da Casa de Alba, período em que a vila possuía grande importância estratégica na região. O conjunto defensivo tinha como objetivo o controle do território, a proteção da população e o reforço do poder senhorial.

De planta quadrangular, o castelo apresenta torres circulares nos cantos, típicas da arquitetura militar do final da Idade Média, e foi erguido em alvenaria de pedra. Além disso, a fortaleza se integra ao antigo sistema de muralhas que envolvia toda a vila, permitindo a vigilância dos acessos e do entorno.

Atualmente, é possível subir às torres e caminhar pelas muralhas, de onde se tem uma vista privilegiada do traçado urbano medieval de Granadilla e do reservatório de Gabriel y Galán, que hoje envolve a antiga vila quase como uma ilha.

Plaza Mayor, Calle Mayor e o traçado urbano da vila

Caminhar por Granadilla é como percorrer uma vila suspensa no tempo. O acesso ao interior se faz pelas antigas portas da muralha, que conduzem diretamente ao traçado urbano original, preservado quase sem alterações.

No centro, a Plaza Mayor funciona como o principal espaço de convivência da vila. Simples e aberta, era ali que se concentravam as atividades sociais, administrativas e comerciais. A partir dela, segue a Calle Mayor, eixo principal que organiza o pequeno núcleo urbano e conecta a praça às ruas secundárias.

Durante o passeio, caminhando tranquilamente pelas ruas silenciosas, foi possível encontrar grupos de estudantes participando de atividades educativas.

Rumo a Cáceres

Após a visita a Granadilla, seguimos viagem em direção a Cáceres, nosso próximo destino do dia. A cidade fica a aproximadamente 95 km de Granadilla, em um trajeto tranquilo pelo interior da Extremadura, atravessando paisagens rurais e áreas de dehesa típicas da região. Chegamos já na hora do almoço, prontos para começar a explorar uma das cidades históricas mais importantes da Espanha.

Conheça o resto de nossa aventura por Extremadura nos links abaixo:

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