1º dia – Chegada e primeira noite no centro histórico de Plasencia
Chegamos a Madrid e, logo de cara, enfrentamos o primeiro desafio da viagem: a mala não apareceu. Como toda a minha roupa estava lá, tivemos que reorganizar os planos. Ainda assim, seguimos com o roteiro.
Depois de resolver o básico no Terminal 1 do Aeroporto Adolfo Suárez Madrid-Barajas, fomos pegar o carro na Europcar, que estava nesse mesmo Terminal. Em seguida, pegamos a estrada rumo ao oeste, na direção de Plasencia, norte da Extremadura.
No caminho, fizemos uma parada para almoçar em uma venta na província de Toledo. Essas paradas de estrada, aliás, têm um charme próprio. São simples, práticas e salvam qualquer road trip.
Chegamos a Plasencia, Extremadura, já no fim do dia e fizemos check-in no Hostal Real. Apesar do nome “hostal”, o quarto era simples, mas muito confortável. Além disso, tinha tudo o que a gente precisava. Outro ponto positivo: o hostal tem uma cafeteria no térreo, aberta ao público. E é lá que eles servem o café da manhã, já incluído na diária. No geral, a experiência teve uma ótima relação custo-benefício.
Como a mala ainda não tinha dado sinal de vida, saímos para comprar alguns itens básicos de roupa. Era noite, mas ainda dava tempo de resolver isso e caminhar um pouco.
Plasencia
Plasencia é uma cidade espanhola da província de Cáceres, situada no norte da Extremadura, na porta de entrada do Vale do Jerte. O município tem cerca de 40 mil habitantes e ocupa uma área de quase 218 km², o que a torna uma das cidades mais importantes da região.
Apesar de sua fundação oficial datar de 1186, o território já era habitado muito antes. Escavações revelaram vestígios pré-históricos, além de estruturas de origem árabe, como a antiga Torre do Ambroz, do século VIII. Esses elementos mostram que a área já tinha valor estratégico antes do surgimento da cidade medieval.
Uma cidade de fronteira na Idade Média
O rei Alfonso VIII de Castela fundou Plasencia em 1186 como uma cidade de fronteira. O objetivo era consolidar o domínio cristão em uma zona ainda instável, próxima aos territórios muçulmanos. O lema escolhido resume bem essa intenção: Ut placeat Deo et Hominibus — “para agradar a Deus e aos homens”.
Poucos anos depois, em 1189, o papa Clemente III criou a Diocese de Plasencia, reforçando a importância religiosa da nova cidade. Ainda assim, os primeiros tempos foram difíceis. Em 1196, os almóadas tomaram Plasencia, mas o domínio durou pouco. No mesmo ano, Alfonso VIII reconquistou a cidade. Após esse episódio, decidiram construir as muralhas, que até hoje definem o perfil urbano do centro histórico.
No final do século XIII, o Fuero de Plasencia incentivou a convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos. Graças a isso, a cidade abrigou a maior comunidade judaica da Extremadura, com forte peso econômico e social.
Entre nobres, reis e conflitos
Durante o século XV, Plasencia viveu um período decisivo. A cidade passou do estatuto de realengo para o senhorio da família Zúñiga, perdendo direitos políticos importantes, como o voto nas Cortes. Esse domínio, porém, não durou para sempre.
Em 1488, com o apoio dos Reis Católicos, a população se rebelou contra os Zúñiga. O movimento teve sucesso, e Plasencia recuperou o estatuto de cidade livre da Coroa. O próprio Fernando, o Católico, jurou publicamente respeitar os foros e a liberdade da cidade diante da catedral.
Idade Moderna e projeção além da Extremadura
No início do século XVI, Plasencia ganhou prestígio. Médicos da corte recomendaram a cidade como um dos lugares mais saudáveis do reino. Por isso, Fernando, o Católico, chegou a fixar residência ali em 1515.
A cidade também teve ligação com a conquista da América. Em 1539, uma expedição financiada pelo bispo Gutierre de Vargas Carvajal partiu rumo ao Estreito de Magalhães. Um dos navios conseguiu atravessá-lo, reforçando a presença espanhola no extremo sul do continente.
Do século XIX à cidade atual
Durante a Guerra da Independência contra Napoleão, Plasencia ocupou posição estratégica. As tropas francesas ocuparam a cidade várias vezes, causando danos e extorsões. Mais tarde, no século XIX, Plasencia disputou com Cáceres a capitalidade provincial, mas acabou ficando de fora.
A partir do final do século XIX e ao longo do século XX, a cidade passou por profundas transformações. A chegada do ferrovia, a modernização dos serviços urbanos e a expansão dos bairros impulsionaram o crescimento econômico e demográfico.
Enquanto a província de Cáceres perdia população, Plasencia duplicou o número de habitantes na segunda metade do século XX. Hoje, a cidade combina patrimônio medieval, memória histórica e vida cotidiana, funcionando como um excelente ponto de partida para explorar o norte da Extremadura.
Arcos de San Antón: o antigo aqueduto de Plasencia
Como a mala ainda não tinha dado sinal de vida, saímos para comprar alguns itens básicos de roupa. Era noite, mas ainda dava tempo de resolver isso e caminhar um pouco.
Assim, aproveitamos e passamos por alguns pontos de interesse indo em direção ao coração da cidade. Dentre eles, os Arcos de San Antón, um dos monumentos civis mais reconhecíveis de Plasencia, Extremadura. À primeira vista, muita gente pensa que se trata de uma obra romana. No entanto, a estrutura atual é bem mais recente.

O aqueduto foi construído em meados do século XVI. Ele substituiu uma condução anterior, conhecida como Cañería de los Moros, que datava do século XII. O objetivo era garantir o abastecimento de água da cidade, trazendo-a desde áreas serranas próximas. Hoje, o conjunto conserva 55 arcos, distribuídos ao longo de cerca de 300 metros, com altura máxima próxima de 18 metros. Mesmo em uma passagem rápida, a escala da obra impressiona.
Puerta de los Carros e as muralhas de Plasencia
Depois dos Arcos de San Antón, descemos em direção à Puerta de los Carros, uma das portas históricas da cidade. Esse trecho já permite observar melhor as muralhas de Plasencia, que acompanham boa parte do centro histórico.

As muralhas começaram a ser construídas no final do século XII, logo após a reconquista cristã definitiva da cidade. Elas tinham uma função clara: proteger Plasencia em uma zona ainda instável, próxima aos territórios muçulmanos. Por isso, o traçado defensivo inclui torres, portas e longos panos de muralha. Caminhar ao lado dessas estruturas ajuda a entender o papel estratégico da cidade durante a Idade Média.
Puerta del Sol: uma das entradas mais emblemáticas da cidade
Seguindo o percurso junto às muralhas, chegamos à Puerta del Sol, uma das portas mais conhecidas de Plasencia. Além de sua função defensiva, ela conserva um forte valor simbólico.
A porta integra o sistema muralhado medieval e traz inscrições que recordam a fundação da cidade por Alfonso VIII de Castela, em 1186. Ao passar por ali, fica claro como Plasencia foi pensada desde o início como uma cidade organizada, protegida e estrategicamente posicionada.


Em frente à porta, fica também um dos letreiros com o nome da cidade, ponto clássico para fotos. Aproveitamos para registrar esse primeiro contato com Plasencia antes de seguir para a área mais animada do centro.
Plaza Mayor de Plasencia: primeiro contato com o coração da cidade
Poucos minutos depois, chegamos à Plaza Mayor de Plasencia, o verdadeiro centro da vida urbana. Como em muitas cidades espanholas, a praça sempre foi palco de mercados, festas populares e eventos públicos.
O espaço é amplo e irregular, rodeado por edifícios de diferentes épocas. O destaque fica para o Ayuntamiento, com sua torre do relógio e o famoso autômato conhecido como Abuelo Mayorga, que marca as horas e se tornou um dos símbolos da cidade.

Para o jantar, escolhemos o restaurante El Globo, localizado na própria praça. Pedimos dois clássicos da gastronomia local: migas extremeñas (prato de pão amanhecido frito, alho, azeite, jamón e ovo frito) e torta del Casar (queijo cremoso e intenso). Ambos estavam excelentes e funcionaram como uma introdução perfeita aos sabores da Extremadura.

Depois do jantar, demos mais uma volta tranquila pela praça. Em seguida, voltamos ao Hostal Real para descansar. No dia seguinte, Plasencia seria explorada com mais tempo — e seus monumentos mereciam atenção total.
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