Suíça V: Schaffhausen

8º dia – Schaffhausen: cidade histórica às margens do Reno

Neste dia, deixamos Lucerna e seguimos de trem para Schaffhausen, no norte da Suíça. Usando o Swiss Travel Pass, saímos de Luzern Bahnhof e fizemos conexão em Zurique antes de continuar até Schaffhausen Bahnhof, em um trajeto de cerca de duas horas.

Ao chegar, fomos caminhando da estação até o Hotel Kronenhof, localizado no centro da cidade. E já começamos essa etapa com uma surpresa muito boa: no momento do check-in, nos informaram de que tínhamos recebido um upgrade e acabamos ficando em uma suíte de luxo.

Vista de uma janela do Hotel Kronenhof, em Schaffhausen, com telhados e edifícios do centro histórico da cidade.

O quarto era realmente incrível, muito amplo, confortável e com um terraço com vistas excelentes da cidade. Depois de deixar as malas e aproveitar um pouco o hotel, almoçamos no próprio restaurante do Hotel Kronenhof. Em seguida, saímos para começar a visita por Schaffhausen, uma cidade histórica às margens do Rio Reno.

Schaffhausen

Schaffhausen é uma cidade histórica do norte da Suíça, capital do cantão de mesmo nome. Com cerca de 39 mil habitantes, fica às margens do Alto Reno, muito perto da fronteira com a Alemanha. Essa localização ajuda a explicar boa parte de sua importância histórica, já que o Rio Reno sempre foi uma rota estratégica para comércio, transporte e circulação de pessoas.

Apesar de não ser uma cidade grande, Schaffhausen tem um centro histórico muito bem preservado. Além disso, a cidade também é muito conhecida pela proximidade com as Cataratas do Reno, uma das principais atrações naturais da Suíça.

A posição de Schaffhausen junto ao Rio Reno foi decisiva para seu desenvolvimento. Durante séculos, a cidade se beneficiou do comércio fluvial e da circulação de mercadorias pela região. Ao mesmo tempo, sua localização no norte suíço, quase cercada pela Alemanha, deu à cidade uma identidade muito ligada ao espaço germânico.

Das origens medievais ao mosteiro de Todos os Santos

A história documentada de Schaffhausen remonta ao século XI. A cidade já aparece ligada à cunhagem de moedas em 1045, um sinal de sua importância econômica ainda na Idade Média. Poucos anos depois, por volta de 1050, os condes de Nellenburg fundaram o mosteiro beneditino de Todos os Santos. Esse mosteiro se tornou o principal centro religioso, econômico e político da região. Ao redor dele, cresceram o mercado, as casas e as primeiras ruas que deram origem à cidade.

Com o tempo, Schaffhausen ganhou autonomia e passou a ter papel importante dentro do Sacro Império Romano-Germânico. No período medieval, chegou a funcionar como uma cidade livre imperial, com privilégios próprios e maior independência em relação a senhores locais.

Schaffhausen e a Confederação Suíça

A relação de Schaffhausen com a antiga Confederação Suíça foi construída aos poucos. No século XV, a cidade buscou alianças com os cantões suíços, em parte para reduzir sua dependência dos Habsburgos e fortalecer sua posição política.

Em 1501, Schaffhausen entrou oficialmente para a Confederação Suíça. Esse momento foi importante porque consolidou a cidade dentro do espaço político suíço, embora sua localização e sua cultura continuassem muito ligadas ao mundo de língua alemã.

Mais tarde, em 1529, a cidade aderiu à Reforma Protestante. Como ocorreu em outras partes da Suíça, essa mudança religiosa teve efeitos profundos sobre a vida política, social e cultural da cidade, inclusive sobre antigos espaços ligados à Igreja.

Século XX e atualidade

Durante a Segunda Guerra Mundial, em 1944, os aviões norte-americanos bombardearam a cidade que, por erro de navegação, atingiram território suíço neutro. O ataque causou mortes e danos materiais, tornando-se um dos episódios mais lembrados da história recente da cidade.

Hoje, uma das principais marcas de Schaffhausen é seu centro histórico. A Cidade Antiga conserva muitas construções medievais e renascentistas, além de fachadas decoradas com pinturas externas. Um detalhe característico são as chamadas oriel windows, janelas salientes ornamentadas que se projetam para fora das fachadas. Schaffhausen é conhecida por ter 171 janelas salientes, mais do que qualquer outra cidade suíça. Assim, no passado, elas eram também símbolos de status das famílias e dos comerciantes mais ricos.

Kirche St. Johann: a Igreja de São João em Schaffhausen

A primeira visita em Schaffhausen foi à Kirche St. Johann, ou Igreja de São João, localizada ao lado do Hotel Kronenhof. Vista de fora, a Igreja chama atenção pela torre alta e pelo relógio instalado na fachada, que se destaca sobre a praça. Acredita-se que já existisse uma primeira igreja nessa região por volta do século XI, quando Schaffhausen começava a ganhar importância econômica. De fato, escavações feitas no século XX encontraram restos de construções anteriores sob o piso da igreja atual.

Kirche St. Johann, no centro histórico de Schaffhausen, com torre do relógio, fachada medieval e praça de pedra em frente à igreja.

Em 1529, Schaffhausen aderiu à Reforma Protestante. Como aconteceu em outras cidades suíças, essa mudança religiosa transformou o interior da igreja, com a retirada de imagens, altares e elementos ligados ao culto católico.

Munot: a fortaleza símbolo de Schaffhausen

Seguimos em direção ao Munot, o monumento mais emblemático de Schaffhausen. Para chegar até lá, fizemos a subida pela Munotstieg, uma escadaria bastante conhecida da cidade, que liga a parte baixa do centro histórico à fortaleza, passando por vinhedos, por casas antigas e por trechos com vistas muito bonitas.

No alto da colina fica, então, o Munot, uma fortaleza circular do século XVI e, sem dúvida, o grande símbolo de Schaffhausen. A construção começou em 1564 e foi concluída no fim do mesmo século, inspirada na arquitetura militar renascentista. Ainda hoje, o monumento domina a paisagem urbana e é um dos cartões-postais mais conhecidos da cidade.

Por fora, o que mais impressiona é justamente o formato robusto da fortaleza, com suas muralhas de pedra e sua torre cilíndrica. Ao mesmo tempo, a posição elevada ajuda a entender a função estratégica que o lugar já teve no passado. Além disso, dali se tem uma vista muito bonita da cidade e dos arredores. Já no interior, o ambiente é bem diferente e traz uma atmosfera mais austera. As grandes abóbadas de pedra e os espaços internos ajudam a imaginar melhor o caráter defensivo da construção.

Münsterkirche: a igreja do antigo Mosteiro de Todos os Santos

Depois do Munot, seguimos para a região do antigo Kloster Allerheiligen, o Mosteiro de Todos os Santos. Ali fica a Münsterkirche, uma das construções religiosas mais importantes do centro histórico de Schaffhausen.

A Münsterkirche, também conhecida como Münster zu Allerheiligen, fazia parte do antigo mosteiro beneditino fundado na Idade Média. Mais tarde, com as mudanças trazidas pela Reforma Protestante, a antiga abadia foi dissolvida e a igreja passou a ter função paroquial protestante. Vista por fora, a Münsterkirche chama atenção pelo aspecto sóbrio e pelas paredes de pedra. Diferentemente de outras igrejas mais ornamentadas, ela transmite uma impressão mais austera, ligada à arquitetura medieval.

Ao lado da igreja, vimos a Schillerglocke, ou Sino de Schiller. Essa grande peça de bronze foi fundida em 1486 e chegou a ser o maior sino da igreja de Todos os Santos. O nome está ligado ao escritor alemão Friedrich Schiller, que usou a inscrição do sino como inspiração para o poema “Das Lied von der Glocke”, ou “A Canção do Sino”.

A inscrição em latim é Vivos voco, mortuos plango, fulgura frango, que pode ser traduzida como “Chamo os vivos, lamento os mortos, afasto os raios”. Por isso, mesmo fora da torre, a Schillerglocke continua sendo um objeto histórico importante, ligado ao patrimônio religioso de Schaffhausen e também à literatura alemã.

Em seguida, passamos pelo Kreuzgang Allerheiligen, o claustro do antigo mosteiro. O espaço mistura elementos românicos e góticos e envolve um jardim interno bastante tranquilo. O Kreuzgang Allerheiligen é considerado o maior claustro da Suíça.

Vordergasse: fachadas históricas no centro de Schaffhausen

Voltando ao centro histórico de Schaffhausen, continuamos a caminhada pela Vordergasse. Ali, os edifícios preservam muitos detalhes históricos e as fachadas decoradas aparecem com frequência. Essa área é uma das melhores para observar a arquitetura antiga da cidade, com fachadas decoradas, lojas, cafés e várias janelas salientes.

No meio desse conjunto fica a Tellenbrunnen, uma fonte histórica tradicionalmente datada de 1522. Ela também é conhecida como fonte de Guilherme Tell, herói lendário suíço associado à luta pela liberdade. No alto da coluna, aparece a figura armada, com escudo e lança, criando um dos pontos mais fotogênicos dessa parte de Schaffhausen. Outro detalhe interessante é a própria bacia da fonte, de formato octogonal, ligada a uma fase posterior da construção.

Outro destaque foi o Haus zum Ritter, um dos edifícios mais conhecidos de Schaffhausen. O nome pode ser traduzido como “Casa do Cavaleiro”, e a construção é famosa principalmente pelos grandes afrescos que cobrem sua fachada. O edifício original é de 1492 e foi reformado em 1566 por Hans von Waldkirch. Poucos anos depois, entre 1568 e 1570, o pintor suíço Tobias Stimmer, nascido em Schaffhausen, realizou os afrescos da fachada. Essas pinturas estão entre os exemplos mais importantes da pintura renascentista em fachadas ao norte dos Alpes.

Haus zum Ritter, no centro histórico de Schaffhausen, com fachada coberta por afrescos renascentistas e rua de pedra.

No entanto, o que vemos hoje na parte externa do Haus zum Ritter não são os afrescos originais. Em 1935, as pinturas originais foram retiradas da fachada para preservação e passaram a ser expostas no Museum zu Allerheiligen. Mais tarde, a fachada recebeu uma recriação baseada nas pinturas antigas, mantendo o impacto visual do edifício no centro histórico. A fachada impressiona pela quantidade de cenas, cores e figuras. Há referências alegóricas, elementos ligados à virtude, à glória, à história antiga e à cultura humanista do Renascimento.

Fronwagplatz: praça histórica no centro de Schaffhausen

A caminhada continuou pela Fronwagplatz, uma das praças mais importantes do centro histórico de Schaffhausen. Ela fica em uma área de passagem natural da Cidade Antiga, conectando ruas como a Vordergasse, a Unterstadt e a Vorstadt.

Um dos destaques da Fronwagplatz é o Fronwagturm, a torre com relógio astronômico do século XVI. O edifício fica em uma das extremidades da praça e chama atenção pela fachada amarela, pelo relógio e pela posição de destaque no conjunto urbano. A praça também está ligada ao antigo comércio da cidade. O nome Fronwagplatz tem relação com a antiga balança pública, usada para pesar mercadorias que passavam por Schaffhausen. Como a cidade ficava em uma rota importante do Rio Reno, esse tipo de estrutura era essencial para o controle comercial.

Outro ponto importante da praça é o Landsknechtbrunnen, também conhecido como Metzgerbrunnen. Essa fonte histórica tem quatro saídas de água e é considerada a maior fonte da cidade. No alto da coluna, aparece a figura de um soldado armado, símbolo da cidade fortificada e da capacidade de defesa de Schaffhausen.

Vorstadt e Schwabentor: fachadas históricas e uma das antigas portas da cidade

Em seguida, seguimos para a Vorstadt, outra rua importante do centro histórico de Schaffhausen. A Vorstadt não era apenas uma rua de passagem. Historicamente, ela fazia parte da expansão urbana fora do núcleo mais antigo e, por isso, acabou se tornando uma área de circulação, comércio e acesso ao restante da cidade. Um dos destaques dessa parte do passeio foi observar as casas históricas com pinturas murais, algo muito típico de Schaffhausen.

Por fim, chegamos à Schwabentor, uma das antigas portas de Schaffhausen. A torre medieval, construída em pedra e com relógio na parte superior, é um dos elementos defensivos que lembram o tempo em que a cidade era protegida por muralhas e portões de acesso. O próprio nome Schwabentor pode ser entendido como “Porta da Suábia”, uma referência à direção da região da Suábia, no sul da Alemanha. Assim, além de ter função defensiva, a porta também marcava uma importante saída da cidade.

Oberstadt e Obertorturm: a cidade alta

Seguimos para a Oberstadt. Como o próprio nome indica, trata-se da “cidade alta”, ou seja, uma área situada na parte mais elevada do núcleo antigo. Além disso, a Oberstadt tem aquele ambiente típico de cidade medieval que Schaffhausen conserva tão bem.

Rua da Oberstadt, em Schaffhausen, com calçamento de pedra, edifícios históricos de fachadas decoradas e vista parcial da Obertorturm ao fundo.

Outro destaque dessa área é a presença da Obertorturm, uma das antigas torres-porta da cidade. O nome pode ser entendido como “torre do portão superior”, o que faz sentido por sua localização na parte alta do centro histórico.

Büsingen am Hochrhein (Alemanha)

Depois de visitar o centro histórico de Schaffhausen, pegamos o ônibus em direção a Büsingen am Hochrhein. O trajeto foi muito rápido: em cerca de 5 minutos, já estávamos nesse pequeno enclave alemão cercado por território suíço. Além disso, como estávamos usando o Swiss Travel Pass, o ônibus estava incluído no passe. A visita a Büsingen am Hochrhein entrou no roteiro justamente por sua situação política curiosa. Apesar de pertencer oficialmente à Alemanha, a vila está completamente cercada pela Suíça.

Uma vila alemã cercada pela Suíça

Büsingen am Hochrhein fica no estado alemão de Baden-Württemberg, no distrito de Konstanz, mas está rodeada por cantões suíços. A vila é pequena, com cerca de 1.440 habitantes, e ocupa uma área de 7,62 km².

Na prática, no entanto, a vida cotidiana de Büsingen está muito ligada à Suíça. A vila fica às margens do Rio Reno, muito próxima de Schaffhausen, e a integração com o território suíço é tão forte que a fronteira quase não é percebida por quem chega de ônibus.

Como Büsingen virou um enclave

A origem dessa situação está ligada à história política da região. Durante a Idade Média, Büsingen passou por diferentes domínios locais e esteve relacionada ao espaço germânico do Alto Reno, aos Habsburgos e também à influência de Schaffhausen.

Com as reorganizações territoriais do início do século XIX, a vila permaneceu vinculada aos estados alemães, primeiro ao Reino de Württemberg e depois ao Grão-Ducado de Baden. Enquanto isso, o território ao redor ficou integrado à Suíça. Assim, Büsingen acabou ficando isolada do restante da Alemanha e cercada por território suíço.

Essa condição especial foi sendo ajustada ao longo do tempo. Em 1835, Büsingen passou a ter uma situação aduaneira diferenciada. Mais tarde, um tratado entre Alemanha e Suíça, assinado em 1964 e em vigor desde 1967, formalizou a inclusão de Büsingen na área alfandegária suíça.

Assim, a moeda mais usada é o franco suíço, o sistema postal tem códigos alemão e suíço, e não há controle de fronteira entre Büsingen e a Suíça. Além disso, como a vila faz parte da área alfandegária suíça, a circulação de mercadorias e a vida econômica estão muito mais conectadas ao entorno suíço do que ao restante da Alemanha.

Mais do que um grande conjunto de monumentos, o atrativo de Büsingen está justamente nessa singularidade geográfica e política.

Caminhada pelo vilarejo

Ao chegar a Büsingen am Hochrhein, começamos a caminhada pela região próxima ao Rio Reno. A margem do rio foi uma das primeiras áreas que visitamos, com vista para a água, pequenos barcos e a paisagem do Alto Reno. Em seguida, passamos por ruas tranquilas do vilarejo, como a Junkerstrasse, onde aparecem casas tradicionais, construções em enxaimel e a torre com relógio ao fundo.

Também passamos pelo Bürgerhuus Büsingen am Hochrhein, o edifício comunitário da vila. A fachada tem uma pintura com as bandeiras da Alemanha e da Suíça, um detalhe interessante depois de toda a explicação sobre a situação especial de Büsingen.

Bürgerhuus Büsingen am Hochrhein, com pintura das bandeiras da Alemanha e da Suíça na fachada.

Depois dessa volta pelo vilarejo, seguimos para o ponto de ônibus e retornamos a Schaffhausen. Em seguida, fomos para o Hotel Kronenhof para descansar depois das visitas do dia.

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