4º dia – Nova Olinda, Santana do Cariri e Assaré: cultura, fósseis e geossítios no Cariri
Depois do café da manhã no Hotel Encosta do Horto, pegamos o carro e seguimos em direção a Nova Olinda, primeira parada de um dia bastante intenso pelo Cariri. Ao longo do roteiro, conheceríamos também Santana do Cariri e Assaré, passando por diferentes atrações culturais, históricas e naturais, além de vários geossítios do Geopark Araripe, que revelam a riqueza geológica, paleontológica e arqueológica da região.
Nova Olinda
Nova Olinda é uma cidade pequena em extensão urbana, mas surpreendentemente rica em cultura, história e tradições populares. O município integra o território do Geopark Araripe e tinha uma população estimada de 15.960 habitantes em 2024.
A paisagem ao redor combina as áreas mais verdes próximas à Chapada com o Sertão do Cariri. Além disso, a posição da cidade em antigas rotas de circulação ajudou a formar uma identidade ligada às boiadas, ao couro, à agricultura e aos saberes transmitidos entre diferentes gerações.
Antes de receber o nome atual, a localidade chamava-se Tapera. Segundo a história municipal, um missionário pernambucano decidiu mudar o nome para Nova Olinda por causa das características geográficas do lugar. O povoado pertencia a Santana do Cariri e tornou-se distrito em 1933.
Posteriormente, a Lei Estadual nº 3.555 criou o município de Nova Olinda em 1957, desmembrando seu território de Santana do Cariri. Atualmente, o município reúne os distritos de Nova Olinda e Triunfo.
Geossítio Ponte de Pedra: ponte esculpida pela ação da água
Nossa primeira visita do dia foi ao Geossítio Ponte de Pedra, localizado na zona rural de Nova Olinda. Saindo de Juazeiro do Norte, percorremos cerca de 46 quilômetros para chegar. A formação de arenito lembra uma grande ponte natural sobre o vão de um pequeno riacho, no qual a água costuma aparecer apenas durante o período chuvoso. Ao longo de milhões de anos, a erosão desgastou as camadas mais frágeis da rocha, enquanto as partes mais resistentes permaneceram no lugar. O arenito pertence à Formação Exu e surgiu há aproximadamente 96 milhões de anos, durante o período Cretáceo.

Caminhamos sobre a própria formação rochosa e observamos de perto suas dimensões, cercados pela vegetação. A Ponte de Pedra também possui importância arqueológica. De fato, pesquisadores encontraram nas proximidades gravuras e pinturas rupestres, fragmentos de cerâmica e instrumentos de pedra associados às antigas populações indígenas Kariri. Acredita-se, inclusive, que a formação tenha servido como passagem para indígenas e, posteriormente, para os vaqueiros que percorreram e ocuparam a região.
Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri: arqueologia, memória e educação em Nova Olinda
Depois de conhecermos o Geossítio Ponte de Pedra, seguimos para o centro de Nova Olinda e visitamos a Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri, instalada em um casarão colorido na Avenida Jeremias Pereira. A instituição surgiu em 1992, após a restauração da antiga Casa da Fazenda Tapera, construção ligada às origens do município e às rotas de boiadas que conectavam o Cariri ao Sertão dos Inhamuns durante o ciclo do couro.


Construída no século XVIII, a casa permaneceu em ruínas durante anos até ser recuperada para receber o memorial. Em seu interior, o espaço preserva objetos arqueológicos, peças de pedra e cerâmica, fotografias, registros da tradição oral e representações de mitos e lendas relacionados aos povos Kariri e à formação cultural da região.
Igreja Matriz de São Sebastião: fé e tradição no centro de Nova Olinda
Depois da visita à Fundação Casa Grande, chegamos à Igreja Matriz de São Sebastião, principal templo católico de Nova Olinda. A igreja chama a atenção pela fachada branca, pelos arcos pontiagudos e pela alta torre central, onde se encontra um relógio.

A Paróquia São Sebastião de Nova Olinda foi criada em 20 de janeiro de 1980 por Dom Vicente de Paulo Araújo, terceiro bispo da Diocese do Crato. Até então, o território religioso do município pertencia à Paróquia Senhora Sant’Ana, de Santana do Cariri. Além de padroeiro da cidade, São Sebastião ocupa um lugar importante nas tradições locais.
Praça Espedito Seleiro e Museu do Ciclo do Couro: a arte que transformou Nova Olinda
Seguimos até a área dedicada a Mestre Espedito Seleiro, um dos nomes mais importantes da cultura de Nova Olinda. O espaço em frente ao ateliê, conhecido como Praça Espedito Seleiro, reúne o museu, a oficina e a loja do artesão. O entorno passou por uma revitalização que valorizou as referências arquitetônicas e culturais do Sertão caririense.
Nascido em 1939, Espedito Veloso de Carvalho aprendeu com o pai o ofício de seleiro quando ainda era criança. No início, produzia selas e equipamentos usados por vaqueiros, tropeiros e cangaceiros. Posteriormente, passou a criar bolsas, sandálias, botas, roupas, móveis e outros objetos, combinando o couro com cores intensas e arabescos que se tornaram sua marca. Além disso, transmitiu o conhecimento aos filhos, netos e jovens da comunidade por meio da Oficina Escola Espedito Seleiro.


Em seguida, visitamos o Museu do Ciclo do Couro – Memorial Espedito Seleiro, inaugurado em dezembro de 2014. O espaço conta a história do couro no sertão e acompanha a trajetória familiar do mestre, desde as antigas rotas de boiadas até o desenvolvimento de sua linguagem artística.
No interior, encontramos fotografias, ferramentas, máquinas de costura e diferentes peças feitas em couro. Entre os destaques aparece uma máquina que pertenceu ao avô de Espedito Seleiro e serviu à produção de artigos destinados a vaqueiros, tropeiros, ciganos e cangaceiros. Assim, a exposição não apresenta apenas objetos: ela mostra como o trabalho artesanal passou de uma geração para outra e se tornou parte da identidade cultural do Cariri.
Depois do museu, também conhecemos a loja e o ateliê, onde vimos de perto peças produzidas pelo mestre, por seus familiares e pelos artesãos que mantêm essa tradição. Bolsas, sandálias, cintos, calçados e objetos decorativos exibem os desenhos geométricos e as combinações de cores características de Espedito Seleiro.
Arte nas ruas: a identidade cultural de Nova Olinda
Enquanto caminhávamos por uma rua comum de Nova Olinda, encontramos este desenho em uma das fachadas. O mural reúne elementos que representam bem a identidade local, como a igreja, as casas, os pássaros, as bandeirinhas e o céu estrelado. O traço simples, quase como uma ilustração de cordel, transforma a parede em um pequeno retrato do cotidiano e das tradições do Cariri.

A imagem também mostra como a cultura está presente por toda parte em Nova Olinda. Mesmo sendo uma cidade pequena, encontramos criatividade, memória e referências populares em diferentes cantos.
Geossítio Pedra Cariri: fósseis do Cretáceo
Depois das visitas culturais em Nova Olinda, seguimos pela estrada em direção a Santana do Cariri para conhecer o Geossítio Pedra Cariri. A Pedra Cariri aparece em placas finas e, há muito tempo, serve como revestimento de pisos, calçadas e paredes em diferentes cidades da região. Entretanto, sua importância vai muito além da construção civil. Essas camadas se formaram no fundo de um antigo lago há cerca de 112 milhões de anos e preservam fósseis de peixes, plantas, insetos, pterossauros e outros organismos com um nível excepcional de detalhe. Por isso, o geossítio ajuda os pesquisadores a reconstruir o ambiente que existia no Cariri durante o período Cretáceo.

Apesar de toda essa relevância científica, nossa experiência no local não foi das melhores. Durante a visita, o geossítio nos pareceu pouco cuidado, com lixo, sujeira e sinais de abandono. Ainda assim, seguimos por uma trilha curta em meio à vegetação. Ao final do caminho, chegamos à antiga frente de extração mostrada na foto, onde conseguimos observar uma parede de rocha formada por diversas camadas sobrepostas.
Depois da visita ao Geossítio Pedra Cariri, retomamos a estrada e seguimos em direção a Santana do Cariri. Como o geossítio fica entre Nova Olinda e Santana, percorremos aproximadamente 10 quilômetros até o centro da cidade.
Santana do Cariri
O município tem uma população aproximadamente 17 mil habitantes e integra uma das áreas paleontológicas mais importantes do mundo. Por essa razão, recebeu o título de Capital Cearense da Paleontologia, elemento que se tornou parte essencial de sua identidade.
Antes de receber o nome atual, a localidade era conhecida como Brejo Grande. A região já era ocupada pelos Buxixés, povo indígena que habitava parte do Araripe e áreas próximas de Pernambuco. No final do século XVII, os irmãos João Alves Feitosa e José Cavalcante estabeleceram-se nas margens do riacho Brejo Grande, onde encontraram terras favoráveis tanto à agricultura quanto à criação de animais.
Com a chegada de novos moradores, a população construiu uma capela dedicada a Senhora Sant’Ana, no mesmo local onde mais tarde surgiria a igreja matriz. Assim, a devoção religiosa e as atividades rurais contribuíram para o crescimento do povoado. O arraial tornou-se vila em 1885 e alcançou a categoria de município em 1938, inicialmente com o nome de Santonópole.
Entretanto, a paleontologia constitui o principal elemento que diferencia Santana do Cariri de outras cidades da região. As rochas da Bacia do Araripe preservam fósseis do período Cretáceo, entre eles registros de peixes, insetos, plantas, répteis e outros animais que viveram há milhões de anos. Consequentemente, a relação com os fósseis ultrapassa o campo científico e aparece na própria identidade da cidade.
Praça Maria Elaíla Paiva: paleontologia no coração de Santana do Cariri
Nossa primeira parada em Santana do Cariri foi a Praça Maria Elaíla Paiva, localizada no centro da cidade. À primeira vista, o espaço conserva o aspecto tranquilo de uma praça do interior, com árvores, jardins, bancos e antigos casarões ao redor. No entanto, uma grande réplica de dinossauro mostra imediatamente a forte ligação do município com a paleontologia.


Em dezembro de 2018, a praça tornou-se o primeiro espaço temático de Santana do Cariri voltado ao patrimônio fossilífero da região. Dessa forma, o espaço passou a representar, em pleno centro urbano, a condição de Santana do Cariri como Capital Cearense da Paleontologia. A grande escultura constitui o principal destaque da praça e contrasta de maneira curiosa com a vegetação e as fachadas coloridas das casas vizinhas.
Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens: fósseis e história da Bacia do Araripe
Seguimos para o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, ligado à Universidade Regional do Cariri. Fundado em 1985 pela Prefeitura de Santana do Cariri, o museu passou a integrar a URCA em 1991 e tornou-se um importante centro de pesquisa, preservação e divulgação do patrimônio fossilífero da Bacia do Araripe.
O acervo reúne fósseis de plantas, moluscos, crustáceos, insetos, peixes, tartarugas, crocodilianos, pterossauros e dinossauros. Além das peças originais, encontramos réplicas em tamanho natural, painéis explicativos e algumas atividades interativas que ajudam a compreender como era a vida na região há milhões de anos.

Nossa impressão sobre a exposição foi dividida. Por um lado, o museu apresenta informações interessantes e recursos lúdicos que tornam a paleontologia mais acessível. Por outro, sentimos que boa parte da visita estava excessivamente direcionada ao público infantil. O espaço poderia oferecer explicações mais aprofundadas e diferentes níveis de leitura, atendendo melhor tanto às crianças quanto aos visitantes adultos interessados na importância científica dos fósseis.
Mas o que mais nos incomodou foi a condução da visita. A administração colocou uma criança como guia mirim para nos acompanhar. Em nossa experiência, ela parecia mais preocupada em terminar rapidamente o percurso e receber uma gorjeta do que em apresentar o acervo ou responder às perguntas.
Não responsabilizamos a criança por isso. Pelo contrário, entendemos que cabe à administração do museu preparar, supervisionar e acompanhar adequadamente esse tipo de iniciativa. Um programa educativo com crianças pode ser muito positivo, mas não deveria substituir uma mediação qualificada nem colocar sobre elas a responsabilidade de conduzir sozinhas uma visita.
Praça Padre Cristiano Coelho e Igreja Matriz de Senhora Sant’Ana: fé e memória no centro da cidade
Seguimos até a Praça Padre Cristiano Coelho, também conhecida como Praça da Matriz. O espaço amplo e tranquilo reúne árvores, monumentos, antigos casarões e a igreja dedicada à padroeira do município. Além disso, o largo recebe celebrações religiosas e eventos tradicionais de Santana do Cariri.

A devoção a Senhora Sant’Ana acompanha a história de Santana do Cariri desde seus primeiros tempos. Segundo os registros da Diocese do Crato, a imagem venerada na capela primitiva teria sido trazida pelos irmãos Feitosa em 1710. Ela permaneceu no altar-mor até 1876 e acabou furtada um século depois.
A igreja atual apresenta elementos de inspiração neoclássica e se destaca pela torre central com relógio. Em frente ao templo, um grande cruzeiro reforça o caráter religioso do conjunto. Durante nossa passagem, a fachada mostrava sinais de desgaste e havia uma estrutura de manutenção em uma das laterais.


Ao entrarmos, encontramos um interior bastante bonito. A nave possui grandes arcos laterais, bancos de madeira e um piso decorado com diferentes padrões geométricos. No alto, o teto chama a atenção pelas faixas que convergem para um elemento floral no centro. O principal destaque, porém, é o altar-mor, ornamentado com colunas, imagens sacras e detalhes dourados. Ao fundo, uma pintura com anjos e nuvens completa a composição.
Pontal da Santa Cruz: capela, mirantes e paisagens sobre o Vale do Cariri
Como última parada em Santana do Cariri, pegamos o carro e subimos até o Pontal da Santa Cruz, situado a cerca de 4 quilômetros do centro da cidade. Localizado no topo da Chapada do Araripe, próximo à antiga comunidade de Cancão Velho, hoje chamada Vila do Pontal, o geossítio fica a aproximadamente 750 metros de altitude e oferece uma vista privilegiada do vale, do rio Carius e da área urbana de Santana do Cariri.
Segundo a tradição oral, uma antiga assombração aparecia no Pontal, produzindo faíscas e assobios que assustavam os moradores da comunidade localizada aos pés da serra. Para tentar acabar com o fenômeno, a população organizou uma procissão até o alto da formação rochosa e ergueu uma cruz. Posteriormente, os moradores construíram também a pequena capela. A partir de então, de acordo com a lenda, a assombração deixou de se manifestar.

Depois de conhecermos a capela, caminhamos pelas áreas de observação e chegamos à plataforma metálica construída sobre a encosta. De lá, contemplamos Santana do Cariri, as estradas, as pequenas comunidades rurais e as extensas áreas verdes espalhadas pelo vale.


Também fomos até o grande cruzeiro instalado entre as rochas. A combinação entre o céu carregado de nuvens, o relevo da chapada e a vegetação deixou a paisagem ainda mais marcante. Sem dúvida, foi uma das vistas mais bonitas daquele dia.

Além dos mirantes e da capela, o Pontal da Santa Cruz conta com um restaurante. Como já estava na hora do almoço, fizemos nossa refeição ali mesmo, no alto da chapada. Depois, encerramos nossa passagem por Santana do Cariri e seguimos para Assaré, a aproximadamente 60 quilômetros, nossa próxima etapa do roteiro.
Assaré
Situado a oeste da Chapada do Araripe, o município ocupa uma posição estratégica entre o Cariri e o Sertão dos Inhamuns, em uma região atravessada desde o período colonial por importantes caminhos de circulação.
Com população estimada em 22 mil habitantes aproximadamente, Assaré conserva o ritmo tranquilo das pequenas cidades do interior cearense. Seu território, porém, é extenso: ultrapassa 1.150 km² e reúne áreas de Caatinga, Cerrado e cerradão, além de serras, riachos temporários e paisagens típicas do sertão.
A formação de Assaré começou por volta de 1775, quando Alexandre da Silva Pereira se estabeleceu na região com a família, a criação de animais e trabalhadores escravizados. Como diferentes estradas se cruzavam naquele ponto, a fazenda transformou-se em local de descanso para viajantes e, posteriormente, em um pequeno entreposto comercial entre o Cariri, os Inhamuns, o Piauí e outros sertões nordestinos.
Para estimular o povoamento, Alexandre da Silva Pereira doou terrenos ao redor da propriedade e reservou uma área para o patrimônio religioso da futura freguesia. Mais tarde, a construção da Igreja de Nossa Senhora das Dores e a transferência da sede paroquial para Assaré, em 1850, contribuíram para consolidar o núcleo urbano. Assaré tornou-se vila em 1865, após se separar de Saboeiro. Já em 1938, o governo elevou a vila à categoria de município.
Entretanto, Assaré ganhou projeção nacional principalmente por ser a terra natal de Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, nascido em 1909 na Serra de Santana. Agricultor, poeta, compositor e improvisador, ele transformou a vida sertaneja, as desigualdades sociais, a religiosidade e a relação do trabalhador com a terra em versos marcados pela oralidade. A ligação com o poeta tornou Assaré conhecida como a Terra da Poesia Popular.
Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores: o templo que acompanhou o nascimento de Assaré
Ao chegarmos ao centro de Assaré, visitamos a Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores, situada na praça principal da cidade. A construção da igreja matriz começou em 1842, no local onde existia uma pequena capela. Posteriormente, em 1850, Assaré tornou-se sede da freguesia, transferida de Santana do Brejo Grande — atual Santana do Cariri — e passou a adotar a denominação religiosa de Nossa Senhora das Dores.

Do lado de fora, a igreja chama a atenção pela alta torre central, coroada por uma agulha e equipada com relógio. A fachada branca, contornada por detalhes escuros, apresenta arcos, pequenas rosáceas e elementos que lembram a arquitetura neogótica.

Também entramos na igreja e encontramos um interior bonito e acolhedor. Grandes colunas revestidas em tons claros e dourados dividem a nave, enquanto os arcos conduzem o olhar em direção ao altar principal. Pequenos altares laterais, imagens de santos e luminárias de estilo antigo completam a ornamentação. O altar-mor reúne diferentes imagens sacras e detalhes em madeira escura, contrastando com as paredes claras.
Memorial Patativa do Assaré: versos, objetos e lembranças do poeta sertanejo
Depois da visita à Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores, atravessamos a praça e seguimos até o Memorial Patativa do Assaré, instalado em um antigo casarão. Embora às vezes seja chamado de casa-museu, esse edifício não corresponde à residência onde o poeta viveu: trata-se de um espaço criado especialmente para preservar e divulgar sua trajetória. O memorial foi inaugurado em 1999, quando Patativa ainda era vivo, e ocupa um lugar simbólico diante da praça que ele frequentava durante seus últimos anos.
O acervo reúne mais de 1.200 itens, entre fotografias, livros, cordéis, manuscritos, vídeos, discos, títulos honoríficos e objetos pessoais. Entre as peças associadas ao poeta aparecem seus característicos óculos escuros, chapéu, bengala, roupas, cadeira de balanço, instrumentos de trabalho e algumas das homenagens que recebeu ao longo da vida.
Patativa nasceu como Antônio Gonçalves da Silva, em 1909, na Serra de Santana, zona rural de Assaré. Tornou-se um dos maiores representantes da poesia popular brasileira ao abordar temas como a seca, a migração, o trabalho no campo, a desigualdade social e a resistência do povo nordestino. Entre suas obras mais conhecidas está “A Triste Partida”, que ganhou projeção nacional após ser gravada por Luiz Gonzaga.
Fizemos uma visita guiada gratuita. A condução foi muito bem feita, com explicações claras sobre a vida, a obra e o contexto em que Patativa produziu seus versos. Em alguns momentos, também colocaram discos com músicas compostas a partir de suas letras.


Em frente à lateral da Igreja Matriz, encontramos também uma estátua de Patativa do Assaré. A escultura mostra o poeta usando chapéu, com uma das mãos levantada, como se estivesse declamando seus versos para quem passa pela praça. A placa do pedestal registra a instalação da homenagem em 1º de fevereiro de 2014.
Casa de Patativa do Assaré: os últimos anos do poeta no coração da cidade
Depois de conhecermos o Memorial, seguimos até a Casa de Patativa do Assaré, localizada perto da Igreja Matriz. Diferentemente da residência rural da Serra de Santana, onde o poeta nasceu e viveu grande parte da vida, esta casa urbana foi o lugar onde ele passou seus últimos anos. Ali, Patativa frequentava as missas aos domingos e recebia amigos, admiradores e visitantes interessados em ouvi-lo declamar suas poesias.

O imóvel foi adquirido pela Universidade Patativa do Assaré em 2024 e passou por um trabalho de revitalização. A organização preservou a disposição dos móveis e transformou a residência em um espaço aberto ao público.
Depois de visitarmos a Casa de Patativa, ainda demos mais uma volta pelo centro de Assaré antes de voltarmos ao carro e seguirmos para Juazeiro do Norte. O trajeto até o Hotel Encosta do Horto tinha cerca de 90 quilômetros e, em condições normais, levaria aproximadamente uma hora e meia. No entanto, enfrentamos um engarrafamento muito grande na entrada de Juazeiro e demoramos bem mais do que o previsto para chegar. Como o dia tinha sido longo e repleto de visitas, fomos diretamente para o hotel e encerramos a noite descansando.
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