Brasil – Ceará V: Barbalha

5º dia – Barbalha: geossítios, águas de Caldas e patrimônio histórico no Cariri

Depois do café da manhã no Hotel Encosta do Horto, pegamos o carro e seguimos em direção a Barbalha. Nosso roteiro reuniria diferentes paisagens e aspectos da história local: conheceríamos alguns geossítios do Geopark Araripe, visitaríamos o distrito de Caldas, famoso por suas nascentes e mirantes, e, por fim, percorreríamos o centro de Barbalha para observar igrejas e casarões.

Barbalha

Barbalha integra a Região Metropolitana do Cariri e forma, ao lado de Crato e Juazeiro do Norte, o núcleo urbano conhecido como Crajubar. O município tem uma população estimada em 81.000 habitantes.

A posição entre o vale e a encosta da chapada ajuda a explicar as paisagens mais verdes, a presença de fontes naturais e a histórica relação da cidade com a agricultura. Ao mesmo tempo, Barbalha preserva um centro urbano marcado por igrejas, sobrados e casarões que recordam diferentes períodos de prosperidade econômica.

Dos povos Kariri ao surgimento do povoado

Antes da chegada dos colonizadores, os povos Kariri ocupavam as terras próximas ao Riacho Salamanca. A partir do século XVII, militares, religiosos e exploradores avançaram pelo interior, estabeleceram contato com os indígenas e organizaram aldeamentos voltados à catequização.

Mais tarde, a distribuição de sesmarias e a busca por riquezas minerais atraíram famílias para o Cariri. Nesse contexto, o capitão Francisco Magalhães Barreto e Sá estabeleceu-se na área onde surgiria Barbalha. Em 1778, ele recebeu autorização para construir uma capela dedicada a Santo Antônio e destinou terras e gado para sua manutenção. Aos poucos, casas e estabelecimentos comerciais apareceram ao redor do templo, dando origem ao núcleo urbano.

Da capela de Santo Antônio à emancipação de Barbalha

O povoado cresceu ao longo das primeiras décadas do século XIX e tornou-se distrito do Crato em 1838. Poucos anos depois, em 1846, Barbalha separou-se do Crato e alcançou a categoria de vila. Finalmente, em 1876, recebeu oficialmente o título de cidade.

Atualmente, o município reúne os distritos de Barbalha, Arajara, Estrela e Caldas. Embora faça parte de uma área urbana bastante integrada a Crato e Juazeiro do Norte, Barbalha conserva uma identidade própria, visível tanto em suas tradições quanto na arquitetura de seu centro histórico.

Canaviais, engenhos e a arquitetura do centro histórico

A fertilidade do vale e a disponibilidade de água favoreceram o cultivo da cana-de-açúcar, atividade que marcou durante muito tempo a economia e a paisagem barbalhenses. Engenhos, canaviais e a produção de rapadura ajudaram a formar uma sociedade economicamente influente no Cariri e deixaram marcas na cultura local. A importância desse passado aparece até no hino municipal, que celebra as fontes e os “verdes canaviais” de Barbalha.

Parte da prosperidade dos séculos XIX e XX permanece registrada nos sobrados, casarões comerciais e residências construídos no centro.

Santo Antônio e a Festa do Pau da Bandeira

Santo Antônio ocupa um lugar central na identidade de Barbalha desde a formação do povoado. Assim, o momento mais conhecido é a Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio, cujo formato atual se consolidou a partir de 1928. Durante o ritual, os carregadores transportam um grande tronco desde a zona rural até a frente da Igreja Matriz, onde ele se transforma no mastro da bandeira do padroeiro. A celebração recebeu, em 2015, o título de Patrimônio Cultural do Brasil.

Riacho do Ouro e Trilha do Mangue: natureza com acesso pouco sinalizado

Nossa primeira parada em Barbalha foi o Riacho do Ouro, onde começa o percurso também conhecido como Trilha do Mangue. Ao chegarmos, deixamos o carro no acostamento da rodovia, junto ao acesso que encontramos para a trilha. Entretanto, não havia estacionamento, placas de orientação ou qualquer sinalização que tornasse a parada mais segura. Por isso, achamos bastante perigoso deixar o veículo naquele ponto.

Descemos a pé até o leito pedregoso do riacho, cercado por uma vegetação densa. A Trilha do Mangue costuma ser classificada como de dificuldade moderada e acompanha uma área formada pela erosão, na qual o caminho passa por um nível mais baixo do que o terreno arenoso ao redor.

Leito pedregoso do Riacho do Ouro, cercada pela vegetação densa da Trilha do Mangue, em Barbalha.

No entanto, durante nossa visita, não encontramos marcações indicando o caminho correto, informações sobre a extensão da trilha ou orientações de segurança. Depois de avançarmos um pouco pelo leito do riacho, percebemos que não seria prudente continuar sem saber exatamente por onde seguir. Assim, preferimos interromper a caminhada e retornar ao carro.

Embora o ambiente natural fosse bonito e despertasse curiosidade, a falta de sinalização e de uma área segura para estacionar prejudicou nossa experiência. Com uma estrutura mínima de orientação, o Riacho do Ouro poderia oferecer uma visita mais tranquila e acessível.

Geossítio Riacho do Meio: nascentes, trilhas e memórias do cangaço

Depois do Riacho do Ouro, seguimos para o Geossítio Riacho do Meio, a cerca de 7 quilômetros do centro de Barbalha. Aqui, encontramos uma estrutura muito melhor para receber os visitantes: havia portaria, placas informativas e trilhas sinalizadas. O geossítio integra duas áreas de proteção ambiental e conserva uma faixa de vegetação densa e úmida, bastante diferente das paisagens mais secas do sertão.

Ao longo do percurso, caminhamos quase sempre sob a sombra das árvores e passamos por pequenos cursos d’água e bicas. O parque abriga três nascentes de águas cristalinas — Nascente da Coruja, Nascente do Meio e Nascente do Olho-d’Água Branco — que ajudam a abastecer as comunidades próximas.

Um dos pontos mais interessantes da trilha é a Pedra do Morcego, uma grande formação rochosa cercada pela floresta. A abertura entre as pedras forma uma espécie de abrigo natural, cuja aparência ajuda a compreender por que o local serviu de refúgio em outros tempos.

Segundo a tradição oral preservada na região, a Pedra do Morcego teria abrigado o Bando dos Marcelinos, grupo de cangaceiros que atuou no Cariri durante a década de 1920. A trajetória do bando deixou marcas na memória e na própria geografia de Barbalha, onde diferentes lugares ainda aparecem associados às suas histórias.

Também existem relatos locais de que Lampião e alguns de seus companheiros teriam passado pelo lugar durante sua visita ao Cariri, em 1926. Entretanto, essa associação se baseia principalmente na tradição oral. Já a ligação da Pedra do Morcego com os Marcelinos constitui uma das narrativas históricas mais conhecidas do geossítio.

Mirante do Cruzeiro do Caldas: teleférico e vistas panorâmicas sobre o Cariri

Depois do Geossítio Riacho do Meio, seguimos de carro até o distrito de Caldas, onde visitamos o Complexo Ambiental Mirante do Caldas. O equipamento fica em uma área protegida da Chapada do Araripe e reúne teleférico, espaços de educação ambiental, trilha acessível, borboletário e áreas de contemplação.

Embarcamos no teleférico e subimos até o Mirante do Cruzeiro. O trajeto liga a Vila do Caldas à parte mais alta do complexo, percorrendo cerca de 550 metros e vencendo um desnível aproximado de 180 metros.

Durante a subida, já conseguimos observar a vegetação da chapada e a paisagem que se abre sobre o Vale do Salamanca.

Na parte superior, caminhamos pelas passarelas e plataformas de observação, de onde contemplamos a encosta da Chapada do Araripe, o distrito de Caldas, o centro histórico de Barbalha e diferentes áreas do Cariri. O grande cruzeiro instalado no mirante destaca-se na paisagem e reforça a tradição religiosa ligada ao lugar.

Gostamos muito da experiência. Encontramos um espaço bem organizado, com boa estrutura e áreas preparadas para aproveitar a paisagem com tranquilidade. As vistas são realmente muito bonitas, especialmente a partir da passarela que avança sobre a encosta. Depois de explorarmos o mirante e tirarmos várias fotos, fizemos o percurso de volta pelo teleférico, encerrando uma das visitas de que mais gostamos na região.

Balneário do Caldas: descanso e banhos nas fontes da Chapada do Araripe

Ainda no distrito de Caldas, seguimos até o Balneário do Caldas, uma das áreas de lazer mais tradicionais de Barbalha. Localizado aos pés da Chapada do Araripe, o complexo possui jardins bem cuidados, espaços arborizados, piscinas abastecidas por nascentes, áreas de descanso e restaurantes.

O principal destaque são as duas fontes naturais conhecidas como Fonte do Bom Jesus e Fonte de João Coelho, cujas águas também abastecem parte da estrutura do balneário. De fato, as nascentes fazem parte do conjunto de fontes subterrâneas que afloram nas encostas da Chapada do Araripe e constituem um importante patrimônio hídrico da região.

Dessa forma, aproveitamos para tomar banho nas duas fontes. Os espaços ficam entre paredes de pedras e recebem diretamente a água que brota da serra, proporcionando uma experiência bem diferente das piscinas convencionais. Depois de uma manhã de trilhas e do passeio de teleférico, foi muito agradável permanecer um tempo na água e relaxar.

Em seguida, almoçamos no próprio balneário e continuamos aproveitando seus jardins e espaços de descanso antes de seguir com nosso roteiro por Barbalha.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário: um templo construído pela irmandade negra de Barbalha

Depois de deixarmos o distrito de Caldas, descemos para o centro de Barbalha, estacionamos o carro e começamos a conhecer a pé seus principais monumentos. Nossa primeira parada foi a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, situada no largo de mesmo nome.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário, decorada com bandeirolas coloridas no centro histórico de Barbalha.

A história do templo começou na primeira metade do século XIX, quando pessoas negras escravizadas, reunidas na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, decidiram construir uma nova igreja. Mesmo assim, a igreja só ficou pronta em 1921, mais de seis décadas depois das primeiras tentativas de construção. O altar-mor, entalhado manualmente em madeira, é obra do artesão Manoel Roque, enquanto a imagem de Nossa Senhora do Rosário colocada no altar veio da França.

Ao longo dos anos, o edifício passou por diferentes intervenções de conservação. Em 2011, iniciou-se uma restauração mais ampla de sua estrutura artística e arquitetônica, concluída com a reinauguração do templo em 2012.

Rua do Vidéo: um corredor de bandeirolas e tradições de Barbalha

Depois da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, continuamos a caminhada pela Rua do Vidéo, uma das vias mais conhecidas do centro histórico de Barbalha. Assim, o percurso reúne antigos sobrados, fachadas coloridas, pequenos estabelecimentos e residências que preservam parte da paisagem urbana tradicional da cidade.

Como nossa visita aconteceu próximo à Festa de Santo Antônio e ao Pau da Bandeira, a rua já estava completamente enfeitada. Centenas de bandeirolas coloridas formavam uma espécie de teto sobre a via, acompanhadas por balões e outros elementos típicos dos festejos juninos.

Praça Filgueira Sampaio: o Calçadão festivo

Continuando nossa caminhada pelo centro histórico, chegamos à Praça Filgueira Sampaio, conhecida popularmente como Calçadão. Como Barbalha já se preparava para a Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio, o espaço estava coberto por bandeirolas e balões coloridos. Assim, na entrada, um grande pórtico anunciava a celebração.

Arborizada e cercada por antigos edifícios, a praça funciona como um espaço de encontro e convivência no centro de Barbalha. Mesas, bancos e luminárias ocupam o calçadão, enquanto a decoração festiva se estende pelas ruas vizinhas. Durante nossa visita, o movimento ainda era tranquilo, mas todo o cenário mostrava que a cidade se preparava para receber os festejos de Santo Antônio.

Diante da praça se encontra o Solar Maria Olímpia, um dos casarões que ajudam a preservar a paisagem histórica de Barbalha. Assim, construído em 1888 por Francisco Rodrigues, o edifício tinha uma organização típica dos antigos sobrados comerciais: o proprietário e sua família ocupavam o pavimento superior, enquanto o térreo abrigava estabelecimentos voltados para a rua.

Rua da Matriz e Casarão Hotel: arquitetura oitocentista sob as bandeirolas de Santo Antônio

Continuamos nossa caminhada pela Rua da Matriz, um dos principais eixos do centro histórico de Barbalha. A via reúne antigos sobrados e casas térreas com fachadas coloridas, portas de madeira e balcões de ferro. Além disso, como a cidade já se preparava para a Festa de Santo Antônio, as bandeirolas formavam um grande teto colorido sobre a rua e produziam desenhos de luz e sombra nas construções.

Entre os edifícios que mais se destacam está o Casarão Hotel, também chamado de Sobrado da Rua da Matriz. O comerciante Antônio Manoel Sampaio mandou construir o imóvel, concluído em 1859, tomando como referência os sobrados da Rua da Imperatriz, no Recife. A construção reflete o modo de vida das famílias mais influentes da Barbalha do século XIX, com o pavimento térreo voltado às atividades comerciais e o andar superior reservado à residência.

Décadas depois, o Governo do Ceará restaurou o casarão e o adaptou para funcionar como hotel, inaugurado em 1981. O estado tombou o imóvel em 1983, reconhecendo sua importância arquitetônica e histórica. Apesar de continuar conhecido como Casarão Hotel, atualmente o edifício abriga a Secretaria de Cultura de Barbalha.

Igreja Matriz de Santo Antônio: o coração religioso de Barbalha

Seguindo nosso passeio pelo centro histórico, chegamos à Igreja Matriz de Santo Antônio, um dos principais símbolos de Barbalha. A história da Igreja Matriz de Santo Antônio acompanha o nascimento de Barbalha. Em 1778, o capitão Francisco Magalhães Barreto e Sá recebeu autorização para construir uma capela dedicada ao santo. As obras começaram em 1785, e o templo foi inaugurado por volta de 1790. Aos poucos, casas e estabelecimentos comerciais surgiram ao seu redor, formando o núcleo urbano da cidade.

A matriz também ocupa um papel central na Festa do Pau da Bandeira. O cortejo termina diante da igreja, onde o tronco transportado pelos carregadores se transforma no mastro da bandeira de Santo Antônio, padroeiro de Barbalha.

Praça da Estação e Palácio 3 de Outubro: memórias ferroviárias e administrativas de Barbalha

Chegamos à Praça da Estação, espaço arborizado que preserva a memória do período ferroviário de Barbalha. A estação da cidade foi inaugurada em 1950 como ponto final de um ramal de aproximadamente 15 quilômetros vindo de Juazeiro do Norte, criado para transportar passageiros e escoar produtos da região.

Na praça se encontra o Palácio 3 de Outubro, antiga Casa de Câmara e Cadeia de Barbalha. Construído durante a grande seca de 1877, o projeto também funcionou como frente de trabalho para retirantes. O térreo possuía seis celas distribuídas ao longo de um corredor, enquanto o pavimento superior abrigava salas administrativas e um salão utilizado pela Câmara Municipal.

Praça da Estação, com o Palácio 3 de Outubro, antiga Casa de Câmara e Cadeia de Barbalha, ao fundo.

Com sua fachada simétrica, janelas altas e pequenos balcões, o Palácio 3 de Outubro representa uma parte importante da história política e urbana do município. Assim, a área da praça reúne dois períodos distintos do desenvolvimento de Barbalha: a administração pública do século XIX e a expansão ferroviária do século XX.

Estátua de Santo Antônio: um novo marco religioso sobre Barbalha

Depois de concluirmos o percurso a pé pelo centro histórico, voltamos ao carro e seguimos até a Estátua de Santo Antônio, localizada no bairro Alto da Alegria. Inaugurado em 1º de abril de 2022, o monumento possui cerca de 30 metros de altura e integra uma área urbanizada criada para fortalecer o turismo religioso de Barbalha.

Estátua de Santo Antônio com o Menino Jesus, no bairro Alto da Alegria, em Barbalha.

A imagem representa o padroeiro da cidade carregando o Menino Jesus, um dos atributos mais conhecidos de Santo Antônio. Do amplo espaço ao redor também se observa parte da paisagem urbana e das elevações do Cariri.

Depois da visita à Estátua de Santo Antônio, voltamos ao carro e seguimos para o Hotel Encosta do Horto, em Juazeiro do Norte. Com essa última parada, encerramos nossas visitas pelo Cariri, depois de vários dias conhecendo cidades, geossítios, trilhas, museus e monumentos históricos da região. Como retornaríamos para casa no dia seguinte, fomos diretamente ao hotel para organizar as malas e descansar.

6º dia – Despedida do Cariri e retorno a Brasília

No sexto e último dia da viagem, deixamos o Hotel Encosta do Horto e seguimos para o Aeroporto Orlando Bezerra de Menezes, em Juazeiro do Norte. O primeiro voo, com cerca de uma hora de duração, levou-nos até Fortaleza, onde fizemos nossa primeira conexão.

Saguão do Aeroporto Orlando Bezerra de Menezes, em Juazeiro do Norte.

Em seguida, voamos por aproximadamente uma hora e vinte minutos até São Luís. Depois de outra conexão, embarcamos para Brasília em um trecho de cerca de duas horas e meia. Chegamos no início da noite, encerrando nossa viagem pelo Cariri depois de dias intensos entre cidades históricas, geossítios, trilhas, museus e manifestações da cultura popular.

Conheça o resto de nossa aventura pelo Cariri cearense nos links abaixo:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Translate »