2º dia – Natureza e paisagens na Chapada do Araripe
No segundo dia da viagem, dedicaríamos o roteiro à Chapada do Araripe, na região do município do Crato. Assim, a programação incluía a Trilha do Belmonte, em meio à paisagem natural da chapada, e uma visita ao Geossítio Batateiras, conhecido pelas formações naturais e importância ambiental.
Chapada do Araripe
A Chapada do Araripe é uma das formações naturais mais importantes do Nordeste brasileiro. Embora nosso roteiro tenha explorado a área localizada no Ceará, a Chapada ocupa um território bem mais amplo e se estende também por partes de Pernambuco e do Piauí. Seu relevo elevado, com paredões marcantes e uma extensa superfície relativamente plana, destaca-se no meio das paisagens do sertão. De fato, na área da Floresta Nacional do Araripe, as altitudes variam aproximadamente entre 760 e 920 metros.
Além de criar belas paisagens, essa elevação influencia diretamente o clima do Cariri. A Chapada funciona como uma barreira natural que favorece a concentração de umidade e a formação de áreas mais verdes, especialmente em suas encostas. Por isso, quem chega ao local encontra um cenário diferente daquele normalmente associado ao interior do Ceará.
Uma formação geológica com milhões de anos
A Chapada do Araripe integra a Bacia Sedimentar do Araripe, formada durante o processo de separação dos continentes africano e sul-americano. Ao longo de milhões de anos, rios e lagos acumularam sucessivas camadas de sedimentos, que mais tarde deram origem às rochas e aos paredões que vemos atualmente.
A bacia reúne registros geológicos principalmente dos períodos Jurássico e Cretáceo. Dessa forma, suas rochas ajudam os pesquisadores a compreender as transformações ambientais ocorridas quando a América do Sul e a África ainda passavam pelo processo de separação.
Um dos maiores patrimônios fossilíferos do Brasil
Além das paisagens, a região ganhou reconhecimento internacional pela excepcional quantidade e qualidade de seus fósseis. As condições dos antigos lagos favoreceram a preservação de peixes, plantas, insetos, tartarugas, crocodilomorfos, dinossauros e pterossauros. Por isso, a Chapada do Araripe funciona como um grande arquivo natural da vida pré-histórica.
Nascentes e vegetação em pleno Semiárido
A estrutura geológica da Chapada também permite que a água da chuva penetre nas camadas de rocha, abasteça os aquíferos e volte à superfície por meio de numerosas nascentes. Dessa forma, estudos citados pelo ICMBio identificaram 307 fontes nas encostas do Araripe, responsáveis por alimentar diferentes bacias hidrográficas e abastecer comunidades do Cariri.
Consequentemente, a região apresenta uma diversidade de ambientes pouco comum no Semiárido. De fato, a vegetação reúne áreas de Caatinga, Cerrado, cerradão, matas secas e florestas úmidas, criando uma zona de transição com grande variedade de plantas e animais.
Atualmente, entre as espécies mais representativas está o soldadinho-do-araripe, ave endêmica encontrada apenas nessa região. Sua sobrevivência depende especialmente das florestas úmidas e das nascentes presentes nas encostas da Chapada.
Floresta Nacional do Araripe-Apodi
Parte importante desse patrimônio natural encontra-se protegida pela Floresta Nacional do Araripe-Apodi, conhecida como Flona do Araripe. Criada em 2 de maio de 1946, ela foi a primeira floresta nacional do Brasil e possui cerca de 38 mil hectares.
A unidade de conservação abrange áreas dos municípios cearenses de Crato, Barbalha, Jardim e Santana do Cariri. Além de proteger a biodiversidade e as fontes de água, a floresta permite atividades de pesquisa, educação ambiental, uso sustentável e visitação. Suas trilhas atravessam áreas de vegetação densa e levam a mirantes naturais com vistas abertas para o Vale do Cariri.
Geopark Araripe: conservação e conhecimento
A Chapada também se relaciona diretamente com o Geopark Araripe, reconhecido em 2006 como o primeiro geoparque das Américas integrado à rede mundial apoiada pela UNESCO. De fato, um geoparque não protege apenas fósseis e formações rochosas: ele procura relacionar o patrimônio geológico à cultura, à educação, ao turismo e ao desenvolvimento das comunidades locais.
O território do geoparque reúne diferentes geossítios distribuídos pelo Cariri. Cada um ajuda a contar uma parte da história da região por meio de fósseis, nascentes, cachoeiras, formações rochosas, sítios arqueológicos e paisagens culturais.
Trilha do Belmonte: mirantes e paisagens da Chapada do Araripe
Depois do café da manhã no Hotel Encosta do Horto, pegamos o carro e seguimos em direção ao município do Crato para fazer a Trilha do Belmonte, uma das experiências naturais que havíamos programado para conhecer na Chapada do Araripe.

Ao chegarmos, encontramos bastante movimento. Havia muitos visitantes, carros e até alguns ônibus estacionados nas proximidades, o que nos deu a impressão de que estavam acontecendo visitas programadas em grupo. Deixamos o carro no acostamento da estrada, assim como os demais visitantes. A entrada da trilha aparece bem identificada por um portal de madeira. Além disso, o percurso estava muito bem organizado e gostamos bastante da experiência.
Mirante do Belmonte: a primeira vista panorâmica do percurso
O primeiro ponto de observação foi o Mirante do Belmonte. Dele, conseguimos ver grande parte do Vale do Cariri, com as áreas urbanas, a vegetação e as serras formando uma paisagem ampla. O mirante conta com uma estrutura de madeira que permite observar a região com mais segurança e tranquilidade.

Mirante do Saco: vista aberta para o Vale do Cariri
Em seguida, chegamos ao Mirante do Saco, outro ponto com uma vista extensa da região. Nesse trecho, a vegetação emoldura a paisagem, enquanto o vale se abre ao fundo, revelando áreas verdes, bairros e pequenas estradas. O local também possui formações rochosas próximas à borda.

Mirante Picoto do Serrano: paredões e formações rochosas
O Mirante Picoto do Serrano foi um dos pontos mais marcantes da Trilha do Belmonte. Além da vista panorâmica, o mirante chama a atenção pelas grandes rochas e pelos paredões cobertos pela vegetação da Chapada do Araripe. De determinados pontos, conseguimos observar tanto o vale quanto as encostas da Chapada. A combinação entre o relevo acidentado, as rochas e a mata torna esse trecho especialmente bonito.


Mirante da Pedra Branca: onde encerramos nossa caminhada
Por fim, chegamos ao Mirante da Pedra Branca, ponto em que decidimos encerrar nossa caminhada pela Trilha do Belmonte. Embora o percurso continue depois desse mirante, já tínhamos conhecido diferentes paisagens e pontos de observação ao longo do caminho.

Nesse trecho, grandes formações rochosas aparecem entre as árvores e criam uma moldura natural para a vista do Vale do Cariri. Depois de contemplarmos a paisagem e fazermos algumas fotos, iniciamos o caminho de volta.
Mirante do Ninho e Pedra do Rosto: novas vistas da Chapada do Araripe
Depois de encerrarmos nossa caminhada na área da Trilha do Belmonte, atravessamos a estrada com cuidado e seguimos para conhecer outros dois pontos de observação: o Mirante do Ninho e o Mirante Pedra do Rosto. Os dois fazem parte das rotas de caminhada da Floresta Nacional do Araripe e costumam aparecer juntos em percursos de aproximadamente três quilômetros, classificados como de nível leve.
O primeiro ponto que visitamos foi o Mirante do Ninho. O acesso atravessa uma área de vegetação até chegar a uma estrutura de madeira instalada diante das encostas da Chapada do Araripe. A partir dali, conseguimos observar os paredões cobertos pela mata, as formações avermelhadas expostas em alguns trechos e parte do Vale do Cariri. O percurso de acesso ao mirante tem cerca de 550 metros e conta com adaptações de acessibilidade. A plataforma de observação permite contemplar os paredões da chapada, o bairro Lameiro e, ao longe, áreas de Juazeiro do Norte.
Gostamos bastante da paisagem, que se diferencia dos mirantes visitados anteriormente por oferecer uma visão mais próxima das encostas e dos recortes do relevo. Além da plataforma, encontramos pontos naturais entre as pedras de onde também se podia observar o vale.


Depois, seguimos até o Mirante Pedra do Rosto. O nome fica fácil de entender quando observamos a grande formação rochosa do local: dependendo do ângulo, seu contorno lembra o perfil de um rosto humano. Além dessa curiosidade natural, o mirante proporciona uma vista ampla do vale, com a vegetação da chapada em primeiro plano e as áreas urbanizadas espalhadas ao longe.

Geossítio Batateiras: trilha, história e banho no rio
Depois de conhecermos os mirantes da Floresta Nacional do Araripe, retornamos ao Crato, onde paramos para almoçar. Em seguida, pegamos novamente o carro e fomos até o Parque Estadual Sítio Fundão, onde se encontra o Geossítio Batateiras, a última atração programada para aquele dia.
Criado em 5 de junho de 2008, o Parque protege uma área de aproximadamente 93,5 hectares, com vegetação que reúne elementos da Caatinga, do Cerrado e remanescentes de Mata Atlântica. O Parque também preserva importantes elementos históricos da região. Entre eles estão um raro sobrado construído em taipa, as ruínas de um antigo engenho de cana-de-açúcar, datado de aproximadamente 1880, e estruturas relacionadas à antiga usina hidrelétrica erguida em 1939.
Rio Batateiras
Para chegar ao rio, fizemos uma caminhada agradável por uma trilha. Pouco antes de alcançarmos o trecho principal do rio Batateiras, o caminho passa por uma área rochosa bastante interessante. Ali, a água corre entre grandes pedras e paredes naturais, formando uma espécie de pequeno cânion. O rio está ligado à antiga lenda indígena da Pedra da Batateira, segundo a qual uma pedra conteria as águas de um lago encantado escondido sob a Chapada do Araripe.


Ao chegarmos ao rio, encontramos um cenário tranquilo. A água forma pequenas piscinas naturais e corre suavemente entre as rochas. Eu não resisti e entrei na água para tomar banho. Depois da Trilha do Belmonte, aquele momento no rio Batateiras foi uma maneira perfeita de relaxar e encerrar nosso dia de contato com a natureza.
Depois dos passeios pela Chapada do Araripe e pelo Geossítio Batateiras, retornamos ao Hotel Encosta do Horto, em Juazeiro do Norte, para descansar. No dia seguinte, continuaríamos nosso roteiro pelo Cariri, conhecendo os principais monumentos do centro de Juazeiro do Norte e, durante a tarde, algumas atrações da cidade do Crato.
Conheça o resto de nossa aventura pelo Cariri cearense nos links abaixo:
